Sinergia e política de Estado são desafios para o Brasil, avalia presidente da Anprotec

Especial - ANPROTEC

Presidente da Anprotec, Jorge Audy, avalia que ecossistema brasileiro é maduro, mas ressalta que é preciso construir programas de governo consistentes e contínuos  - Foto: Gilson Oliveira  Ascom/PUCRSPresidente da Anprotec, Jorge Audy, avalia que ecossistema brasileiro é maduro, mas ressalta que é preciso construir programas de governo consistentes e contínuos - Foto: Gilson Oliveira Ascom/PUCRSMaturidade. Essa é palavra que define o atual estágio do ecossistema brasileiro de empreendedorismo e inovação. O segmento conta com incubadoras e aceleradoras de empresas, parques científicos e tecnológicos, distritos de inovação, coworking e fundos de investimentos privados, institutos de pesquisa, associações representativas, entre outros. O desafio agora é criar sinergia ao movimento e formar políticas públicas de Estado consistentes. A avaliação é do presidente da Associação Nacional Promotora de Empreendimentos Inovadores (Anprotec), Jorge Audy.

Ele concedeu entrevista à Agência CT&I após o término da 26ª Conferência Anprotec, que debateu os mecanismos e espaços de geração de novos empreendimentos inovadores. Sem se esquivar de nenhuma pergunta, o presidente aponta os desafios do Brasil para promover o desenvolvimento econômico e critica o modelo brasileiro de se fazer política. “Um dia se resolve fazer tal coisa e lança um negócio. Fica todo mundo desesperado querendo entender quem propôs, por que propôs, qual o objetivo daquilo e como vai se encaixar com as outras coisas.”

Audy, que também é pró-reitor de Pesquisa, Inovação e Desenvolvimento da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUC-RS), se classifica como otimista e crê em mudanças para o Brasil. “Tenho esperança de que sairemos desse autoflagelo pelo qual passamos no cenário político e econômico .”

Durante a 26ª Conferência Anprotec muito se falou em sinergia entre os diversos atores do sistema brasileiro de empreendedorismo e inovação. Essa é a chave para impulsionar o segmento?

A palavra sinergia traduz bem o que nós necessitamos. Precisamos trabalhar juntos. de forma colaborativa e não segmentada. O Brasil é campeão em fragmentar tudo. Atualmente trabalhamos juntos porque, na verdade, é tanta coisa separada que é preciso 15 entidades e 25 pessoas para tocar um projeto. O movimento do empreendedorismo inovador também sofre desse mal de que cada um quer o seu pedaço.

A tendência mundial é tratar os mecanismos de geração de empreendimentos – como as aceleradoras, incubadoras e coworking – e os ecossistemas de inovação – parques científicos e tecnológicos, distritos de inovação e cidades inteligentes – de uma forma mais orgânica. Esse conjunto de ambientes de inovação fazem parte de um todo. Hoje em dia, no Porto Digital e no Tecnopuc, por exemplo, você não vai diferenciar incubadora de aceleradora e de coworking porque está tudo junto.

Como a Anprotec tem atuado para promover essa interação mais orgânica entre os ambientes de inovação?

A Anprotec tem feito movimentos no sentido de, em primeiro lugar, estabelecer diálogos e conversações com entidades que atuam nesse cenário e tratarmos de atuar de forma orgânica. Um exemplo disso é a aproximação com a Associação Brasileira de Empresas Aceleradoras de Inovação e Investimento (Abraii), em que os membros todos se incorporarão à Anprotec. Estamos fazendo uma mudança no estatuto e teremos novas diretorias para atuarmos de forma mais orgânica e abrangente.

Do ponto de vista político, qual é o principal desafio brasileiro para impulsionar os ambientes inovação?

O nosso maior desafio, na esfera governamental, são as políticas públicas que realmente posicionem a inovação e o empreendedorismo como as bases do desenvolvimento econômico e social do Brasil nas próximas décadas. O que nos trava é a falta de uma Política Nacional de Inovação orgânica e um Marco Legal completo para dar segurança jurídica para as ações de empreendedorismo e inovação.

Cabe ao governo mostrar o caminho e criar condições. Os ecossistemas de inovação que temos no Brasil mostram que a gente sabe como fazer, mas o problema é que temos de fazer em escala muito maior. O Porto Digital é exemplo do potencial que temos de transformar uma cidade a partir de uma visão do século 21. Ele é exemplo de uma transformação urbana. Trata-se de um distrito de inovação implantado no meio da cidade, sem barreiras físicas.

Em 2017, a tendência é que o Ministério da Ciência, Tecnologias, inovações e Comunicações (MCTIC) opere R$ 5,7 bilhões, R$ 900 milhões a mais que neste ano. Esta projeção aliada a uma possível aprovação da PEC 241, que congela os investimentos, não é um cenário preocupante?

O dinheiro público é muito importante, mas o apoio fundamental do governo é na política pública de Estado. A primeira legislação sobre inovação que tivemos é de 2004 e estamos até hoje tentando regular a Lei de Inovação [10.973/2004]. A regulamentação do Marco Legal da CT&I [13.243/2016] está parada. Somos muito lentos para isso, talvez porque cobramos demais o governo por mais recursos em vez de cobrar o que deveríamos.

A PEC 241 é parte de um problema do País. As pessoas não pensam sistemicamente quando fazem essas coisas. É claro que me preocupa. Reduzir investimentos e recursos tem impacto em todas as áreas. Às vezes, parece que as coisas são feitas por rajadas. Um dia se resolve fazer tal coisa e lança um negócio. Fica todo mundo desesperado e querendo entender quem propôs, por que propôs, qual o objetivo daquilo e como vai se encaixar com as outras coisas.

O senhor acredita que é possível o País sair dessa crise econômica e tensão política mais forte?

Eu sou otimista. Tenho esperança de que sairemos desse autoflagelo pelo qual passamos no cenário político e econômico. Mas se não mudarmos e não conseguirmos nos enxergar como uma sociedade diferente e começar a construir um futuro com uma visão minimamente compartilhada, nunca sairemos do lugar. No dia em que conseguirmos ter visão de futuro compartilhada, suprapartidária, aí sim poderemos ter uma sociedade do conhecimento que faça jus ao nosso potencial.

Temos que aprender com as melhores experiências do mundo, como a Finlândia, a Suécia, a China, a Alemanha e os Estados Unidos. Nenhum desses modelos devem ser copiados e implementados aqui. Não vai dar certo. Temos que fazer o nosso modelo, que deve ter como base inovação e empreendedorismo. O problema no Brasil é que a cada governo novo, o País é refundado. Isso faz com que não tenhamos uma perspectiva de tempo onde as coisas possam acontecer.

(Felipe Linhares, da Agência Gestão CT&I)